quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Uma pintura sonora


edição e revisão: Patrícia Chammas







     A música sem fronteira que nos envolve.


Prestes a completar seus 50 anos de carreira vitoriosa, o compositor, violeiro e cantor, Renato Teixeira, não imaginaria que pudesse ganhar um presente dessa magnitude no auge dos seus 72 anos, que é ter parte de sua obra arranjada por grandes nomes como Ruriá Duprat, André Mehmari, Italo Peron, Vittor Santos, Paulo Aragão, Tiago Costa e interpretada pela Orquestra do Estado de Mato Grosso e a voz solene do próprio artista.

            O álbum “Renato Teixeira & Orquestra do Estado de Mato Grosso – Terra de Sonhos” chega com status de clássico e não pode faltar na CDteca dos amantes da boa música. São 14 faixas com a regência majestosa do visionário e talentosíssimo maestro Leandro Carvalho. O CD é mais uma produção e distribuição do selo, editora e gravadora Kuarup. Dezembro chegou e, com certeza, esse disco é um verdadeiro presente para quem comunga da beleza poética que a música pode nos contemplar. Com ele podemos viajar pelas imagens que o som vai produzir em cada um que se entregar a essa audição rica em detalhes. A voz de Renato emoldurada por cello, baixo, violões, violas de cocho, bruacas e ganzá, típicos da região do Pantanal Mato-grossense ecoa como o canto de um pássaro que sai do ninho em um voo rasante.

            Renato Teixeira está em um dos melhores momentos de sua carreira. Podemos contemplar sua presença nos palcos nos seguintes formatos: show solo, em duo com Sérgio Reis no show “Amizade Sincera” ou em trio com os amigos Sérgio Reis e Almir Sater no show “Tocando em Frente”. Agora podemos mergulhar nas nuances que o show com a Orquestra do Mato Grosso vai nos proporcionar.
            A OEMT abre as portas para os solistas e artistas brasileiros através do maestro Leandro Carvalho, que está sempre inovando. Em 13 temporadas realizou mais de 700 concertos em mais de 120 cidades em todas as regiões do País. Isso deve ser comemorado! Em release, Renato Teixeira cita a sensação que é ouvir sua música com esse capricho da orquestra: “A gente passa a vida toda fazendo aquele feijãozinho com arroz, né (risos), mas agora é diferente de tudo o que já fiz. Poder tocar com a Orquestra do Mato Grosso, com arranjos específicos e muito bem cuidados, que fujam dos formatos originais das canções, com interpretação eloquente do maestro Leandro Carvalho e de todos aqueles instrumentistas, me causa uma sensação muito boa, de renovação”.

            Com arranjo pulsante, evolvente, viajante de Ruriá Duprat, a música que dá título ao álbum, “Terra de Sonhos” (Renato Teixeira/Almir Sater), abre a audição do disco que convida a ouvir o simples da poesia e as notas que saltam de cada instrumento como um balé de pássaros nas copas das árvores. Mehmari, com seu arranjo minucioso, nos convoca a um passeio por “Tocando em Frente” (Renato Teixeira/Almir Sater). Não quero tirar de você, leitor, a surpresa desta audição que é rica em detalhes. Ainda nos resta descobrir as nuances poéticas e melodias de doze canções. Boa viagem ao belo! Renato e Leandro, simplesmente obrigado por tanta delicadeza

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A feminina voz para Gonzaguinha


edição e revisão: Marsel Botelho







     O bálsamo da voz nos banha a alma.



Quando o compositor e cantor carioca Gonzaguinha nos deixou há vinte e seis anos, a cantora Mirianês Zabot tinha apenas dez anos e vivia no interior gaúcho, na cidade de São João Bosco. A menina cresceu, desceu a serra gaúcha e desde então divide com todos o sonho que havia sonhado: cantar. De posse de um raro e inato talento, seu álbum de estreia, Mosaico Foto – Prosaico, de 2009, confirma a expertise não só de cantora, mas também seu dom de unir qualidade harmônica, melódica e poética em primorosas interpretações. Deu a si mesma uma missão digna de poucos: cantar Gonzaguinha. Onze temas foram escolhidos, incluindo uma faixa em parceria com o violonista e arranjador Oswaldo Bosbah (que assina os arranjos), presenteando-nos com o álbum Mirianês Zabot canta Gonzaguinha – Pegou o sonho e partiu.

Zabot, predestinada a levar o canto por todos os cantos que houver vida inteligente, mergulha na essência de sua feminilidade em Maravida: “Vida, vida, vida/Que seja do jeito que for/Mar, amar, amor/Se a dor quer o mar dessa dor, ah!” Mirianês faz jus ao privilégio de ter a presença e o aval de uma das maiores divas da voz, Claudette Soares, em dueto, na clássica De Volta ao Começo.

É do samba Com a perna no mundo a frase Pegou o sonho e partiu, que soa como um mantra para a cantora. O cello de Mário Manga em Sangrando é como bálsamo penetrante. Perguntei a Mirianês o que significa, hoje, cantar Gonzaguinha:     ─ Gonzaguinha é um artista que emociona, comove, que faz chorar. É intenso, visceral; ao mesmo tempo traz doçura e fé. Suas canções contêm mensagens edificantes. É importante que possamos ouvi-las sempre. Dedico meu trabalho como cantora à obra dele ─ disse-me.

 Em Desenredo (G.R.E.S. Unidos do Pau-Brasil), parceria com Ivan Lins, a gaúcha celebra cada acorde, tamanha a facilidade de interpretação, mesmo nos temas mais gonzaguianos (que o fizeram ser o ídolo que é). Os arranjos de Bosbah configuram a exata dimensão da força do canto e da voz de Zabot. Em Comportamento Geral, Mirianês faz cada sentimento valer a pena. Sua voz tem o brilho e a agudeza do cristal em Feliz. Espere por mim morena é a canção do disco que me deixa mais próximo desse fantástico artista Gonzaguinha. A mim me vêm imagens do filho do rei do baião cantando sua preciosa morena. Enquanto escrevo estas linhas, sinto como é difícil mergulhar nesse universo e não se emocionar.

Todo grande artista sabe o dom que tem de enternecer, de fazer sorrir e chorar, de não nos deixar esquecer o quanto somos frágeis, e isso seja, quiçá, o porquê de que tanto sonhamos por um lado; por outro, o mainstream dessa força interior que nos faz ser humanos, capazes de construir os mais belos sonhos, tanto quanto de demolir as mais perversas realidades, nisso Mirianês Zabot faz-nos acreditar em Um sonho nos lábios, Galope, Caminhos do Coração e na faixa bônus Vidas Idas.
O show Mirianês Zabot canta Gonzaguinha – Pegou o sonho e partiu está dentro do projeto Talento MPB, nesta quarta-feira, às 21 horas, no Bar Brahma, Av. São João/Ipiranga. São Paulo.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A Rica Música Brasileira

edição e revisão: Marsel Botelho







     Feliz dia dos músicos com música de qualidade






Muita gente me questiona a razão de escrever sobre artistas que a grande mídia não mostra. A resposta é simples: eles existem e estão aí para serem descobertos e vistos por todos, principalmente por um público muito especial, aquele que não se deixa doutrinar. Sempre foi assim, essa é a grande verdade. A cada dia novos e talentosos artista surgem, vindos dos lugares mais interioranos ou urbanos da sociedade. A música independente ganha força, de qualquer que seja a vertente. Apesar de a grande mídia entrar na casa das pessoas sem pedir licença, com a pretensão de decidir o que pode ser melhor para elas ouvirem, a margem de escolha que permite é pouca ou nenhuma. Mas o Brasil é uma país de dimensões continentais, sua diversidade musical vai do Oiapoque ao Chuí. Evidente que o público em geral espera e acredita que as forças que movem o projeto social humano sejam generosas e lhe ofereçam o melhor sem que seja preciso esforço algum por parte do ouvinte. Mas isso não é real. Não podemos perder o senso crítico, vital para o aperfeiçoamento de qualquer que seja a arte que se faça e para o do próprio ser humano, que é parte ativa nesse processo de construção civilizatório.

 A geração de artistas de hoje muito tem de semelhante com aquela linhagem de ouro da música brasileira, como Caetano, Gil, Chico, Milton, Bethânia, entre outros tantos que com certeza no início de suas carreiras também passaram por algo análogo, mas a força de sua arte inequivocamente os projetou. Existem, aqui em São Paulo, vários nichos onde são encontrados esses artistas em pleno exercício de seu ofício. A Vila Madalena é um desses polos de efervescência musical: quando você se vê lá no meio, parece estar em um mundo diferente dentro do próprio Brasil. Que música é essa? Onde posso ouvir? Atualmente uma rádio vem fazendo a diferença nesse cardápio tão rico a ser oferecido: a Rádio Brasil Atual FM, que foi indicada ao renomado prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o programa concorrente é o Hora do Rango, com Oswaldo Luiz Colibri Vitta, pela diversidade musical apresentada na audição radiofônica. O blog que apresentamos, www.planetampb.blogspot.com.br, e esta coluna estão indo para o sétimo ano, veiculada diferencialmente em mídia impressa.   

Não nos cabe apontar o que não presta, porque na efemeridade se esvai, desaparece com a última luz, além do que seria um desserviço de sentido, todavia, em contraponto, podemos identificar o tripé que mantém a boa música no caminho do futuro: melodia, harmonia e letra (poesia, caso não instrumental), cuja textura sonoplástica atende aos requisitos que sempre nortearam a eterna arte. A pseudomúsica pode mesmo sempre insistir em vagar por aí nas encruzilhadas da vida. A beleza harmônica, melódica e poética faz com que nos encontremos quando estamos perdidos; apazigua nossos corações e instiga a mente à reflexão, enfim, faz-nos uma pessoa melhor. A boa música tem o poder de nos fazer amar uns aos outros.






quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Aplausos para Claudete Soares


edição e revisão: Marsel Botelho







      Vitalidade e voz em prol da canção



Salve os deuses da canção por conservar a voz e a inquietude desta mulher Claudette Colbert Soares, nascida no Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 1937, de nome artístico Claudette Soares. São 80 anos bem vividos e mais de sessenta anos de carreira. Lançando seu décimo sétimo álbum, Canção de Amor, a cantora carioca nos brinda com a beleza e o vigor de seu canto. Produzido pelo jornalista Thiago Marques Luiz, o CD tem o selo de qualidade da gravadora Kuarup. O álbum, composto de 21 músicas distribuídas em 12 faixas, tem a direção musical, arranjos e piano de Alexandre Vianna.

Inspirado no livro A Noite do Meu Bem, do jornalista e escritor Ruy Castro, Claudette mergulha no oceano do samba-canção e emerge dele com um repertório de clássicos datados dos anos 50, 70, 80 e 90. Mesmo com o passar do tempo, a voz da Diva da Bossa Nova mantém-se intacta, firme, límpida e carregada de emoção. Esse disco já nasceu clássico, obrigatório para os conhecedores e amantes da música brasileira, que o terão em sua CDteca. Sofisticado desde o repertório até a capa, o encarte exclusivo ganha ilustração de Rosana Alencar Ribeiro, a partir das fotos e produção de Murilo Alvesso.

Como passar por essa vida e não ouvir nem conhecer a talentosíssima e detentora de uma simpatia ímpar, Claudette Soares? Há mais de seis décadas vem contribuindo com sua arte para a grandeza da música popular brasileira. Em Canção de Amor, a cantora empresta a voz e canta nomes como Maysa, Dolores Duran, Tom Jobim, Chico Buarque, João Donato e Cristóvão Bastos. Esse resgate deixa claro que os grandes selos multinacionais não podem deixar de investir em nossos grandes ícones musicais, assim como vem consolidar o trabalho incansável de Thiago Luiz. Também se deve aplaudir a louvável iniciativa da gravadora e selo Kuarup, através de seu diretor artístico Rodolfo Zanke, que viabiliza projetos dessa monta, concretizando-os com qualidade inquestionável. Toda essa vitalidade que a artista nos passa certamente deve-se ao fato de amar profundamente o que faz, combustível essencial que a fez percorrer, sempre com qualidade, sua longa e vitoriosa trajetória musical.

A audição começa arrebatadora com A noite de meu bem (1959 – Dolores Duran), Foi Assim (1957 – Tom Jobim/Milton Mendonça) e Fim de Noite (1960 – Chico Feitosa/Ronaldo Boscoli). Essa tríade sonora vai proporcionar uma viagem regada a saudades para os mais maduros; aos jovens ouvintes é a oportunidade de ouvir canções que atravessaram o tempo e ainda continuam essenciais. A faixa dois traz a composição que dá título à essa vital obra de arte sonora, Canção de Amor (1950 – Chocolate/Elano de Paula). Esse trabalho é necessário ouvi-lo, prestigiá-lo, um disco que veio fazer história. Sem dúvida, oportuno, como o faz Claudette Soares, é decantar a vida e exultar dela suspiros de exaltação. É preciso aplaudi-la de pé.

Para saber mais, você pode comprar o CD nas melhores casas do ramo ou ouça-o nas plataformas digitais. Extremamente emocionado, encerro aqui. Obrigado, Claudette Soares!



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Com a bênção de Zé Geraldo


edição e revisão: Marsel Botelho







      O som das águas o cheiro da terra a poesia que vem das cachoeiras







Como sabemos a grandeza de uma pessoa, principalmente em se tratando de um artista? Quando ela, apesar da magnitude de sua arte, ainda cultiva dentro de si a semente da simplicidade. Falo de um mito da música brasileira, Zé Geraldo, que, além de tal qualidade, está abençoando um novo artista, o violeiro, cantor e compositor Francis Rosa, cujas canções, consubstanciadas numa discografia de 6 CDs e um DVD, vêm oxigenar a cena musical brasileira em seu mais novo álbum Caminhada, com participações especiais de Zé Geraldo, Nô Stopa, Folk na Kombi, Tuia Lencioni e Filho dos Livres.

Nascido e criado em Joanópolis (SP), conhecida como “a terra do lobisomem”, o artista fez da Serra da Mantiqueira sua grande inspiração. Sua poesia traz o cheiro da terra molhada por onde caminha a correnteza dos rios e as águas das cachoeiras. Zé Geraldo foi apresentado a Francis pelo produtor musical MICA, desde então, carinho, respeito e cumplicidade entre ambos se fizeram sempre presentes. Os amigos preparam um lançamento em DVD e CD para breve, que receberá o nome Francis Rosa & Zé GeraldoCantos e Versos.

Francis é dono de um timbre que acolhe a alma, voz carregada de puro sentimento. A audição começa com a música título Caminhada (F.R), que é uma declaração às coisas que fazem parte da vida de cada lugar, versos de rara beleza existencial, como a da passarinhada cruzando o céu, a do banho no ribeirão. Destaque para o arranjo de cordas. Em Um dia (F.R), o violeiro, nos acordes de sua viola, questiona a luz e a escuridão que mora no poeta. A primeira participação especialíssima é a de Nô Stopa, que divide os vocais em Coração (F.R), uma moda de viola daquelas que ensinam a sonhar. O cantor e compositor, expoente do folk Tuia Lencioni, participa em dose dupla, fazendo a letra da bela Palavras, além de dividir os versos com o parceiro Francis: “Quero a calma do luar... levitar... eu sonhei/Tenho as asas do pensar... sobrevoar... alcancei/Num abismo de palavras... silenciei.”

Esse não é um disco qualquer. A sonoridade nas cordas quase nos fala e nos remete ao ato existencial mais caro ao ser humano: sua efêmera temporalidade, a transitoriedade das coisas que vêm, assim como vão até o coração. Em O Violeiro e a Viola (Francis Rosa/Maurício Folha Seca), temos a participação de o Filho dos Livres. Francis Rosa aprecia o convívio da família e receber os amigos em seu sítio para cantorias enluaradas, à beira da fogueira, onde fez a canção Bonifácio (F.R) para eternizar o bairro em que reside, seu canto, seu lugar, que foi vestida por letra do amigo Zé Geraldo. Os parceiros do Folk Na Kombi tocam e cantam o velho “Bonifácio”, agora eternizado em uma canção de seu filho ilustre. Em Serrano (Francis Rosa/Rafael Schimidt), a cantoria é instrumental, de viola. Finalizando a audição, ouviremos Sonhos, Mundo Velho Sem Porteira (F.R) e Eu Moro no Morro (Silvio Garcia). Músicas de qualidade, eis a prova.

O nome do show é Zé Geraldo apresenta Francis Rosa, no espaço do Projeto Talento MPB – Bar Brahma, quarta-feira, às 22 h. Av. São João/Ipiranga. São Paulo.